(Tradução do 3° artigo: “Progress on my Lower Cabinet” )

Andamento da Construção da Cômoda

www.woodnewsonline.com – No. 48 – August 2009
Por Dilo Márcio Fernandino
Belo Horizonte, MG, Brasil

Volto novamente para relatar aos leitores da Wood News algumas batalhas de marcenaria que travei e venci desde a publicação do meu artigo anterior, que descreveu meus trabalhos iniciais de construção de uma cômoda no estilo rococó. Tais vitórias foram conquistadas nas áreas do design e da construção.
Antes de começar, devo alertar àqueles leitores que ainda não estão familiarizados com minha oficina que as operações de marcenaria que descrevo podem parecer primitivas e estranhas porque eu voluntariamente substituí todas as operações usualmente mecanizadas pela minha única especialidade da escultura. Também lembro que meu uso exclusivo de ferramentas manuais se deve às severas restrições que meu estilo de vida urbano me impõe e que tal prática não significa qualquer preconceito contra as máquinas elétricas.
O móvel ora em construção será uma cômoda de gavetas destinada a servir como peça de sustentação do armário superior que terminei em outubro (fotografado na minha oficina, à direita) em conformidade com minha imagem mental de um armário rococó de dois corpos (como o highboy americano).
O primeiro grande desafio técnico que enfrentei foi desenvolver o projeto em ordem lógica inversa, o que significa começar pelo fim do processo: o tampo – previamente feito. Assim sendo, calculei as proporções adequadas para as pernas frontais sinuosas (“cabriolet” em francês) e para a face frontal côncava-e-convexa (“bombé”).
O segundo grande desafio foi a total inexistência de ângulos retos e de superfícies planas – uma heresia para todos os marceneiros. A natureza desses desafios induziu-me a uma nova forma de pensar (uma forma “não-cartesiana”, eu diria) que ao final demonstrou ser satisfatória. A propósito, um amigo engenheiro estabeleceu um inteligente paralelo entre meu método empírico para extrapolar superfícies curvas e o método técnico conhecido como “engenharia reversa de formas”, o que me deixou orgulhoso!
O jacarandá-da-baía disponível para este projeto foi resgatado de uma antiga tulha demolida e adquirido doze anos atrás. As respectivas árvores haviam sido derrubadas há um século. O jacarandá de antigo crescimento é uma pedra preciosa para a marcenaria e eu penso que, para utilizá-lo, qualquer artesão deveria aplicar os princípios tradicionais que extraem os melhores efeitos visuais de suas únicas propriedades físicas. Originalmente descobertos pelos artesãos portugueses do séc. 16, tais princípios foram sabiamente resumidos pelo autor anônimo de um magnífico livro vitoriano originalmente publicado em 1853:


“...o jacarandá-da-baia é a madeira menos adequada para escultura de todas as madeiras usadas em mobiliário; seu grão longo e aberto requer tanto polimento que toda curva produz um agudo lampejo de luz como metal polido; sua cor escura e opaca, quando cortada transversalmente ao veio, absorve a luz e anula inteiramente a distinção entre meios-tons e sombras; por isso tudo o que poderíamos desejar na ornamentação do jacarandá é produzir agudos lampejos de luz, brilhantes como gotas de orvalho sobre o chão escuro. O entalhe elaborado está completamente perdido; um ornamento ousado e livre, contrastando fortemente a profunda sombra negra contra as luzes faiscantes, é mais adequado para ela; quando a madeira tem coloração muito alaranjada, então essas objeções são reduzidas.”

Conseqüentemente, concebi as maciças pernas frontais como colunas sinuosas e lisas, cujos capitéis são constituídos por leves volutas encimando máscaras mitológicas greco-romanas – Baco e Medusa – as quais representam sentimentos opostos. As extremidades inferiores das pernas foram concebidas como grandes volutas decoradas com vigorosas folhas de acanto.

Construção

Sobre a construção propriamente dita, o primeiro problema foi escolher as peças apropriadas dentre meu estoque de jacarandá. As peças brutas são irregulares em forma e dimensão e também contêm ocos e rachaduras.
Assim que as peças são cortadas na forma adequada, eu as “visto completamente” colando sobre elas fotocópias extraídas dos desenhos do projeto, com a finalidade de serem usadas como guias visuais dos entalhes, visto que o esboço a lápis torna-se virtualmente invisível no jacarandá. Nesse momento as peças de madeira se parecem com divertidas “múmias” egípcias, especialmente por causa das máscaras grotescas.
Para entalhar dois chanfrados suaves ao longo de cada perna, inicialmente cortei nelas muitos entalhes transversais com o serrote não apenas para servirem de limites de profundidade de escavação, mas também para reduzirem a extraordinária resistência à penetração do formão.
Então, entalhei os frisos e ranhuras do estilo, as folhas de acanto em ambos os pés, bem como as máscaras mitológicas nas extremidades superiores.
Em seguida colei ambas as pernas à armação do tampo, resultando em uma rígida e aprumada estrutura. Continuando, projetei para baixo as necessárias linhas curvas para delinear a superfície frontal em forma de barriga, construindo também moldes de papelão para as sinuosas aduelas frontais, que foram então serradas a mão e coladas em ambas as pernas, completando assim a estrutura frontal da pretendida cômoda de gavetas.
Depois preparei quatro grossos blocos de jacarandá na forma exata da frente de cada gaveta e esculpi uma superfície sinuosa-torcida específica em cada bloco. Fiz uma segunda escavação nas mesmas superfícies para rebaixar seu fundo com o objetivo de deixar filetes ao longo das bordas, com a ajuda do meu método de “furos de profundidade controlada”.
Para fazer o avental da cômoda, cortei uma grossa tábua em conformidade com um molde de papelão anteriormente preparado e utilizei os mesmos métodos de entalhe.
Finalmente, o avental foi colado à estrutura frontal.
Os puxadores metálicos para as gavetas constituíram outro problema. Considerando que uma característica do estilo rococó é sua assimetria, procurei em vão puxadores assimétricos nas lojas de ferragens locais. Então, comprei puxadores de bronze muito maiores em uma fundição artesanal e os serrei e limei até assumirei o tamanho e a forma que eu desejava. Os retalhos de bronze também me foram muito úteis visto que utilizei um par deles para a decoração do avental. Todas essas peças de bronze foram provisoriamente postas em posição com parafusos de aço, os quais serão finalmente substituídos por parafusos de latão.
Agora devo dizer uma palavra sobre o meu jeito pessoal de esculpir madeiras muito duras. Cheguei à conclusão que esses processos que desenvolvi empiricamente (“furos com profundidade controlada” e “entalhes de serrote”) são equivalentes aos métodos que os antigos egípcios e gregos devem ter usado para escavar granito e mármore (a diferença essencial é que estou cerca de cinco mil anos atrasado no tempo).
Além disso, muito cedo decidi proceder a uma arriscada adaptação dos meus formões e ferros de plaina a fim de permitir sua penetração com menor dificuldade nas madeiras muito duras. Destarte (exceto para meus formões japoneses) usei guias de amolação para esmerilá-los à mão sobre folhas de lixa em um ângulo de 20 graus ou menos.
Outra adaptação muito importante tem sido manter as lâminas de todos os meus serrotes completamente polidas, mesmo considerando que tais serrotes têm mais de 25 anos de uso, a fim de reduzir a fricção na serração bem como para evitar a impregnação da resina do jacarandá.
Escreverei outro relatório em uma futura edição do Wood News.