(Tradução do 2° artigo: “Genesis of a Lower Cabinet” )

Gênesis de uma Cômoda

www.woodnewsonline.com – No. 42 – February 2009
Por Dilo Márcio Fernandino
Belo Horizonte, MG, Brasil

Origem Histórica

Em Portugal entre 1750 e 1777 o estilo Nacional Português fundiu-se com o estilo Barroco Italiano, sofrendo algumas influências do estilo Rococó provenientes da França e da Inglaterra. O estilo peculiar resultante, conhecido como “Dom José I”, é reconhecido pelos seus motivos decorativos que são embelezados por curvas nas formas de “C” e “S” e por volutas assimétricas (mas equilibradas). O abundante jacarandá-da-baía que fora importado do Brasil colonial se tornou intimamente vinculado a esse estilo de mobiliário. As muitas peças ainda existentes atestam a extraordinária qualidade artesanal inerente ao estilo Dom José I, bem como sua elegância de design.
O uso do jacarandá na fabricação do mobiliário de luxo originou-se por volta de 1580 quando o rei espanhol Filipe II assumiu o trono do reino português. Ele proibiu o uso da moda decorativa de então, alegadamente mundana, que os artesãos portugueses haviam importado da Índia e da China, tais como incrustações de marfim e prata, laca e dourado. Então, usando um tipo específico de madeira brasileira, conhecida pelos indígenas como jacarandá, ou “madeira-que-não-quebra”, os criativos marceneiros portugueses desenvolveram seu estilo nacional utilizando as excelentes características estruturais do jacarandá, assim como a sua propriedade específica de refletir a luz. Eles criaram motivos especiais de entalhe destinados a contrastar luz e sombra. O único acabamento necessário era a aplicação de cera, o que deve ter deleitado o rei! Nessa época, o jacarandá brasileiro era exportado para Portugal sob a forma de grandes pranchões usados para construir caixões temporários para o transporte de açúcar dentro do casco dos galeões.
Nessa ocasião a influência técnica dos marceneiros portugueses que tinham sido enviados ao Brasil colonial se espalhou para algumas das cidades costeiras. Contudo, eles encontraram um ambiente mais receptivo na província de Minas Gerais, de cujas montanhas fluíam rios de ouro e de diamantes para Portugal. Dentre os artesãos nativos do Brasil, “Aleijadinho” se tornou o mais famoso escultor. Os historiadores acreditam que a capital provincial Ouro Preto era tão rica e movimentada que se tornou a mais populosa cidade das Américas, maior inclusive do que a Nova York daquela época.

Armário entalhado em jacarandá-da-baía

Esta foto de um armário entalhado em jacarandá-da-baía apareceu no meu artigo na edição de janeiro de 2009 da Wood News. Tal armário está destinado a tornar-se a parte superior de um armário de corpo duplo (como no highboy americano).
Atualmente estou vivendo o doce problema de conceber e construir a correspondente cômoda que o suportará, um empreendimento que me trará novos desafios técnicos que terei o prazer de superar.
Como a cômoda terá seu próprio desenho original, até o momento só tenho em mente sua concepção genérica, sem quaisquer detalhes. Por isso terei que refinar sua idéia passo a passo, calculando as proporções relativas e estabelecendo as dimensões finais de cada parte individualmente, as quais serão criadas na seqüência lógica da construção. Normalmente o tempo de planejamento é muito maior do que o tempo de trabalho manual. Mas, como já disse no artigo da edição de janeiro, não tenho pressa. Então, baseado na forma e dimensões do fundo do armário superior já terminado, acabei de construir o tampo da cômoda inferior, conforme está descrito nos seguintes procedimentos e fotos. Observe, por favor, a seqüência das muitas operações de entalhe que realizei com o objetivo de atingir o fim pretendido.
Considerando que o tampo é contornado por uma linha sinuosa e quebrada, o friso que o suporta foi concebido como uma moldura de seção côncava dividida em três partes (além de um friso reto atrás), com o objetivo de aumentar a resistência da montagem e para reduzir a quantidade de cantos agudos a serem unidos.
Uma vez que os três trilhos sinuosos foram cortados e aparados, colei nos seus cantos pequenos pedaços de papel contendo o desenho do perfil da moldura para serem usados como guias visuais, visto que o desenho a lápis torna-se imperceptível sobre o jacarandá. Então, utilizando uma serrinha extraí uma fatia ao longo de toda a extensão da moldura de acordo com seu ângulo de inclinação e seguindo suas linhas de limite. Em seguida, perfurei muitos furos com profundidade controlada usando uma furadeira elétrica manual a fim de determinar o nível mais profundo para a próxima operação - a escavação com a goiva. Nessa operação foi um prazer ver o efeito brilhante produzido no jacarandá cada vez que golpeava a goiva com o macete. O próximo passo foi refinar a concavidade usando grosas, limas e raspadores. Finalmente, usei três diferentes tipos de lixa para o acabamento.
Em seguida, apliquei uma fina camada de selador (muito diluído) na face exterior da moldura e, depois de seca, esfreguei-a com lã de aço. Então apliquei uma fina camada da cera que preparo pessoalmente (combinando carnaúba, cera de abelhas, terebintina, etc.) a fim de evitar qualquer futura impregnação indesejável de cola. Nesse ponto, dei os trilhos curvos por completamente acabados.
Continuando, cortei uma peça reta de jacarandá para construir o trilho traseiro em cujas extremidades entalhei espigas na forma de rabo de andorinha, só na metade da espessura. Os correspondentes encaixes foram entalhados em ambos os trilhos curvos. Os dois cantos formados pela junção das três peças curvas foram reforçados internamente por dois parafusos de aço aparafusados até a metade (suas cabeças foram cortadas depois), os quais se encaixam perfeitamente em dois furos correspondentes na peça oposta.
As quatro peças foram então coladas juntas usando cola epóxi de 24 horas que eu previamente aquecera para acelerar o tempo de reação. Os parafusos e seus furos correspondentes também foram cheios de cola epóxi. As superfícies naturalmente brilhantes do jacarandá se devem a uma resina natural, razão pela qual eu não confio nas colas PVA usualmente vendidas no Brasil. A cola epóxi aquecida também tem a boa função de encher os interstícios.
Depois que a estrutura dos trilhos secou, eu a afixei ao tampo que fora previamente montado com duas tábuas coladas. O trilho frontal foi então colado ao tampo usando o já mencionado sistema de meio-parafuso com cola. Entretanto, os trilhos laterais e o de trás foram afixados ao tampo com parafusos através de fendas para permitir o deslizamento que evitará futuras rachaduras decorrentes da contração e da expansão sazonais.  O tampo da cômoda estava finalmente concluído.
Devo dizer que duvido seriamente que eu pudesse obter melhores resultados usando as máquinas existentes em uma típica marcenaria brasileira, especialmente no tocante à precisão dos cantos agudos. Exemplificando, o jacarandá-da-baia é uma madeira recalcitrante que não aceita facilmente ser trabalhada por tupias manuais de alta velocidade. As fresas finas normalmente se quebram quase que imediatamente, mesmo em cortes muito rasos.
Até agora venci apenas a primeira batalha de uma longa guerra. Minhas próximas batalhas serão conceber e construir suas pernas sinuosas e entalhadas (“cabriolet” em francês) seguido pelas suas laterais convexas (“bombé”) assim como pelas gavetas curvas. Espero que vocês me acompanhem em uma futura edição da Wood News para esta contínua comemoração.