(Tradução do 1° artigo: “My Unusually Small Workshop” )
Minha Minúscula Oficina
www.woodnewsonline.com – No. 41 – January 2009
Por Dilo Márcio Fernandino
Belo Horizonte, MG, Brasil

Em outubro passado descobri, por acaso, o Website da Highland Woodworking (loja dos E.U.A.). Foi uma descoberta muito agradável. Conheci as ferramentas que são anunciadas pela loja bem como a sua revista online Wood News, com sua seção de dicas e técnicas. Em conseqüência, adquiri um mini arco de pua japonês para ser enviado ao Brasil onde moro. Embora estivesse preocupado com as exigências aduaneiras, a ferramenta me foi entregue conforme o esperado.
Quando recebi a edição de dezembro da Wood News, li o desafio do seu editor: “Porque você não escreve seu próprio artigo para a Wood News?” O desejo de compartilhar minha estória superou minhas preocupações a respeito do meu pobre inglês escrito e, corajosamente, decidi submeter à aprovação minha verdadeira história pessoal.
Hoje tenho 60 anos de idade e vivo na cidade de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais e uma das maiores metrópoles do Brasil, com cerca de 4 milhões de habitantes. Desde minha graduação universitária tenho trabalhado no gerenciamento de empresas e nunca tive aprendizado em trabalhos com madeira, tampouco convivi com marceneiros. Entretanto, desde a infância o trabalho com madeira tem sido minha paixão secreta. Quando criança costumava fazer brinquedos sentado no chão do quintal (não dispunha de mesa apropriada) usando o serrote cego do meu pai, um martelo e uma grosa.
Entre as idades de 18 e 28 tive que parar de “brincar” com a madeira por causa das responsabilidades da minha vida adulta (universidade, profissão e casamento). Entretanto, esse intervalo de tempo tornou-se um período muito importante para minha evolução mental. Conclui que meu “hobby” tinha evoluído para o nível artístico e descobri a existência da literatura internacional sobre técnicas de trabalhos em madeira, através de autores como Herman Hjorth, C.H. Hayward, Ernest Scott e Rinaldo Donzelli. Conseqüentemente, tornei-me um artesão autodidata.
Considerando que minha paixão pelos trabalhos em madeira abrangia todos eles - da construção naval até a modelagem de miniaturas - muito cedo decidi procurar uma única especialidade que pudesse me satisfazer, mas que minimizasse a maioria dos efeitos negativos da marcenaria. Além disso, meu estilo de vida urbano e a limitação dos recursos financeiros exigiram que minhas aspirações relativas ao trabalho em madeira (e os investimentos necessários) fossem minimizadas. Então adotei o lema “o mínino do mínino”.
Por isso decidi substituir a maioria das operações mecanizadas da marcenaria pela especialidade da escultura, em parte porque a escultura não exige máquinas e também porque reduz drasticamente o volume do investimento e o espaço necessário (assim como a geração de poeira e barulho).
Obviamente conscientizei-me de que tal decisão exigiria um tremendo aperfeiçoamento das minhas habilidades em trabalhar a madeira, assim como não poderia me preocupar com o prazo de execução.  Como amador nunca tive a intenção de ganhar dinheiro vendendo meus trabalhos. Portanto, todas as minhas peças permanecem comigo como se fizessem parte de minha família.
Também decidi focar minha atividade de escultura (que é a minha forma pessoal de praticar a marcenaria) e meu pouco tempo disponível (dias úteis após 20 h. e fins de semana) em um único estilo de época com o objetivo de aperfeiçoar-me. O estilo que elegi foi o barroco brasileiro que foi diretamente influenciado pelo barroco português e pelo rococó francês. Minha madeira preferida é o jacarandá-da-baía recuperado de construções rurais que são demolidas.
Assim decidido, encomendei uma mini banca de marceneiro (58 x 58 cm) e afiei meus velhos formões. Minha primeira “oficina” foi a cozinha do meu apartamento alugado. Meu primeiro projeto da idade adulta foi uma cama de casal com os respectivos criados, todos escavados em pranchas maciças de jacarandá, segundo meu próprio desenho no estilo barroco. Ressalto que minha esposa - que tem obsessão por limpeza - ainda me ama. Isto se torna possível porque desde o início ela estabeleceu normas rígidas para minha atividade de escultura (incluindo o uso de marreta de borracha para reduzir o barulho) as quais tenho conseguido respeitar.
Alguns anos depois nos mudamos para meu próprio apartamento onde minha esposa me cedeu o uso do quarto de empregada (2 x 2 m), onde tenho esculpido por mais de 30 anos. A despeito do aperto desse quartinho e da proibição de poeira e barulho, esse minúsculo espaço se tornou meu “paraíso” onde tenho construído algumas peças muito bonitas.
O prazo médio para a construção de cada peça tem sido de três anos. É uma conseqüência direta das restrições que me são impostas por minha vida profissional, bem como pelo longo tempo investido na criação de cada peça, já que nunca copio qualquer peça existente. Normalmente eu procuro conceber cada uma em conformidade com os princípios do barroco/rococó, elaborando pessoalmente os desenhos de todo o projeto. Considerando que não utilizo máquinas elétricas, gosto de brincar com a “licença poética” do rococó através da inclusão de detalhes esculpidos que se sobrepõem e ultrapassam os rígidos limites das molduras e frizos.
Meu atual conjunto de ferramentas é composto basicamente por uma banca de marceneiro no estilo italiano, uma pequena banca para entalhes, uma furadeira elétrica manual, uma serra para esquadrias, serrotes, plainas, limas e grosas, formões e goivas (mais de 200), martelos e malhos, raspadeiras, alicates, grampos, chaves de fenda e uns poucos instrumentos de medição. Normalmente gasto somente 30% do tempo de trabalho manual utilizando serrotes, plainas, grosas e raspadeiras. Os restantes 70% são dedicados exclusivamente ao entalhe com os formões e as goivas. Acredito que tenho trabalhado a madeira de forma idêntica à que era realizada no século 18, o que significa um extenuante esforço físico, mas uma alta qualidade.
A madeira bruta que ocasionalmente adquiro de fazendeiros provém de diversas espécies de jacarandá, cujos padrões e cores diferem muito entre si. As árvores que as produziram foram derrubadas um século atrás e sua madeira parece estar quase que vitrificada. Algumas dessas madeiras têm densidade específica superior a um. Por causa da sua extraordinária dureza, todos meus formões são comprados dos melhores fabricantes internacionais e são amolados manualmente em um ângulo inferior aos usuais 25 graus, de forma a serem afiados como navalhas.
As peças brutas de jacarandá são cuidadosamente examinadas como se fossem raras pedras preciosas, a fim de que melhor se possa utilizar sua beleza e estrutura. Conseqüentemente, minha idéia original para cada obra tem que ser adaptada às efetivas dimensões da madeira disponível. As toras de jacarandá são caracterizadas por ocos e rachaduras ao longo de seu eixo central, o que muito prejudica seu cerne. Também a cor e o padrão dos veios variam tanto dentro de uma mesma peça que é necessária uma alta dose de paciência para alcançar uma combinação agradável entre peças adjacentes.
Uma palavra deve ser dita sobre o jacarandá-da-baía, que é o rei de todos eles. É um verdadeiro deleite observar o que resulta do desdobramento de uma antiga tora. Sua cor é quase preta com listas vermelhas e a aparência de cada prancha difere da prancha anterior. O padrão dos veios pode ser paralelo, catedral ou ovóide.
Depois de feito o exame preliminar de uma peça bruta, eu a coloco dentro do meu automóvel (sobre os encostos dos assentos) e a levo a uma serraria de uma cidade vizinha onde é desdobrada em pranchas. Essa é a única vez que minha madeira é beneficiada por uma máquina elétrica. Meu método pessoal de substituir as demais operações mecanizadas de marcenaria exige sucessivas operações manuais de escavação para se atingir o objetivo final. Tal método pode ser cansativo e entediante, mas, felizmente, eu não tenho pressa.

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Minha reação instintiva à pergunta “Quais são meus pensamentos filosóficos sobre o trabalho em madeira?” seria responder que não os tenho. Entretanto, observando minha micro oficina deparei-me com duas máximas que eu tinha afixado à parede, que dizem:
“A arte não ama o covarde” (Vinicius de Morais, poeta brasileiro); e
“Quando o amor e a habilidade trabalham juntos, aguarde uma obra prima” (John Ruskin, crítico de arte inglês).
Por isso concluí que existe uma razão filosófica inconsciente para eu tê-las afixado.
Observando que amor é uma palavra comum em ambas as máximas, agora eu posso conscientemente assumir que o amor é a essência do meu trabalho em madeira. Minha motivação primária é a paixão por vencer um novo desafio técnico e não o futuro uso do objeto acabado. Para mim, toda obra que concluo deve representar uma nova conquista técnica. Além disso, meu amor incondicional pela madeira - independentemente da madeira utilizada ou do objeto acabado – me faz crer que eu sou um viciado em madeira. Em resumo, eu adoro o desafio de descobrir os segredos de trabalhar a madeira, particularmente porque eu sou um amador autodidata.
Meu processo de criação sempre começa com a escultura da parte mais importante do móvel, o frontão. Também sinto forte atração por molduras intrincadas, junções complexas, ângulos excêntricos e a curvatura de peças sólidas de jacarandá. Gosto de entrelaçar a “licença poética” (fluidez ilimitada) do escultor com a precisão geométrica do marceneiro, justapondo os sentimentos opostos dessas duas profissões. Portanto, minha fantasia voa alto porque não sou tutelado pelo gosto do consumidor e o estilo rococó me oferece toda a inspiração que eu poderia desejar.
Contudo eu não seria completamente honesto se não revelasse que, junto com seus deleites, o trabalho em madeira também me evoca certos sentimentos negativos, como se eu fosse um clandestino em um país estrangeiro. Talvez isso advenha da impressão de incomodar minha esposa, de roubar tempo da minha atividade profissional e de fazer uma espécie de arte desprezada por muitos brasileiros (inclusive alguns especialistas em arte).
Entretanto, também devo dizer que minha determinação de remar contra a correnteza tem sido intimamente compensadora.
Eu costumo me sentir como se fosse um andarilho num deserto, sem companheiros nem destino. As únicas pessoas que já viram minhas obras são uns poucos amigos que às vezes me chamam de “maluco”. Entretanto, a Internet mudou minha perspectiva porque ela me conscientizou dos muitos outros “malucos” que existem mundo afora.
Eu espero que essa forma bizarra em que sou forçado a realizar meus projetos em madeira faça os demais amantes da madeira se sentirem um pouco menos frustrados.